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“As imagens da água são igualmente variadas […] e poeticamente evocativas. A água é, ao mesmo tempo, a imagem da vida e da morte” Juhani Pallasmaa
As cidades de Ur, Uruk e Nippur, na Mesopotâmia, marcam o berço da civilização; transição de um estilo de vida nômade para o sedentarismo, tendo como característica marcante o desenvolvimento da agricultura.
Para suprir essa revolução social e cultural, um dos grandes méritos dessa sociedade foi o domínio sobre os recursos hídricos in illo tempore. Com o desenvolvimento de ferramentas de controle, sistemas de irrigação, drenagem e contenção das águas – em suma, garantindo água nos períodos de seca e, ato contínuo, protegendo as plantações durante as cheias.
O desenvolvimento desses sistemas pode ser visto como um marco da necessidade humana de controlar o ambiente em que vive como forma de maximizar o aproveitamento de recursos naturais.
Há, todavia, um paradoxo entre a necessidade elementar e o risco consequente de estar junto de cursos d’água. Muitas cidades, no Brasil e no mundo, implantaram-se diretamente às margens desses corpos de água; sejam eles rios, lagos ou até mesmo o mar, para usufruir com maior praticidade dos recursos hídricos.
E qual o custo disso? Hoje, com o avanço da urbanização e o adensamento populacional urbano, muitas cidades correm risco de alagamento, expondo seus habitantes a situações de risco.

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O cenário trágico ocorrido no Rio Grande do Sul entre os meses de abril e maio de 2024 é um exemplo dessa problemática. Cidades inteiras ficaram alagadas, com o aumento do nível dos rios causado pelo grande volume de chuvas. E, apesar de serem números históricos do que já é considerada a maior tragédia natural do Rio Grande do Sul, outros casos similares – ainda que de menor intensidade – têm ocorrido na mesma região em intervalos recorrentes, como o que presenciamos em Santa Catarina, bem como no Rio Grande, entre os meses de agosto e novembro de 2023.
Para melhor entendermos os problemas da urbanização relacionados às cheias, inundações e alagamentos, primeiramente, precisamos entender como funcionam a estrutura e elementos que compõem um rio.

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A área de domínio de um rio pode se estender para muito além do seu leito natural. Originalmente, o rio é composto pelo leito, por onde as águas fluem naturalmente; as margens, caracterizadas pela presença de vegetação ciliar e por último, mas não menos importante, a várzea, que são as áreas alagáveis para onde o volume de água de um rio pode avançar, em casos de volume de chuva muito acima da média.
Na grande maioria dos casos, o volume de chuvas não supera a capacidade das margens do rio. Porém, em situações extraordinárias, a água extrapola esse limite e inunda as várzeas.
O problema está na forma como estamos ocupando estes espaços, principalmente agora, com o avanço da urbanização. As margens de rios são locais de implantação de muitas cidades, ocupando as áreas inundáveis das várzeas.

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Consequência de uma legislação ambiental regulamentar ulterior à ocupação urbana, que surge em momento de crise e colapso de algumas cidades e onde a densidade e extensão da urbanização tornam difícil a implantação de soluções práticas, viáveis e de curto prazo; seja para solucionar, ou ao menos, amenizar esses problemas.
Mas, para entender melhor essa problemática, podemos decupar os ciclos que caracterizam o fluxo natural de um corpo d’água.
Naturalmente, durante as chuvas, existe um percentual de água que é absorvido pelas plantas e infiltrado no solo para então voltar aos rios, lençóis freáticos, seguindo o ciclo natural das águas. A impermeabilização do solo altera esses fatores, fazendo com que sejam modificados os índices de infiltração superficial e subsuperficial da água. Como consequência, temos um aumento do seu escoamento superficial e da velocidade com que a água retorne aos cursos d’agua.
Em pequenas quantidades, isso não chega a ser um problema; porém, com o aumento do perímetro urbano das cidades, de asfalto, concreto e outros materiais que impedem a infiltração natural do solo. Dessa forma, uma quantidade maior de água irá escoar de forma rápida para os rios, aumentando seu volume de água, ainda no período inicial das chuvas.
Além disso, também devemos considerar que em trechos de rios não urbanizados, a várzea fica desocupada em seu estado natural, permitindo que, com o passar do tempo e os novos ciclos de chuvas, a água altere o traçado do rio através do processo natural de erosão e sedimentação.
Já em áreas urbanizadas, o traçado do rio fica ‘engessado’ pelos limites impostos pela urbanização, o que impacta o ciclo natural da água e a íntima relação que existe entre o volume de chuvas, o leito do rio e a várzea.
Enfim, é o amálgama de todos esses fatores que, como resultado, cria cenários de caos nas cidades – desde pequenos alagamentos, até mesmo cheias mais catastróficas como o que presenciamos recentemente. À quem possa interessar, o livro “O Jardim de Granito” de Ann Spirn é canônico sobre o tema, apresentando com maior profundidade essa problemática.
Uma forma de buscar um diálogo menos conflituoso entre aspectos ambientais urbanos está no conceito de ‘Cidades Esponja”; áreas urbanizadas que têm em seu cerne a capacidade de absorver, armazenar e dispensar a água de forma mais eficiente. Como o próprio nome sugere, esses modelos urbanos são eficazes em reter a água, em vez de dispensá-la.

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Esse conceito tem sido aplicado de forma consistente em projetos modelo, principalmente na China, a exemplo do Parque de Águas Pluviais de Haerbin, na província de Heilongjiang, ou o Sanya Mangrove Park, na província de Haynam.
São exemplos de projetos que aplicam estratégias projetuais vinculadas a um entendimento sobre o ciclo das águas, os tipos de solo e suas respectivas capacidades de absorção e dispersão. São intervenções que vão muito além da aplicação estética de uma arquitetura paisagística.
Enquanto as cidades já possuem seus mais de 10.000 anos de história, o planejamento urbano, como disciplina, ainda é muito recente. Seu surgimento é datado de meados do século XVIII. Além disso, foi somente o planejamento urbano pós-moderno que buscou uma compreensão sobre a perenidade dos espaços citadinos e a necessidade de requalificar áreas existentes.
Estamos ainda dando pequenos passos em relação a uma compreensão hegemônica sobre o impacto que a urbanização causa no meio ambiente. Além disso, precisamos também nos questionar: quais as ferramentas estão ao nosso alcance para minimizar os impactos desses desastres ambientais; e de que forma podemos equalizar a densidade urbana com um reduzido impacto no meio ambiente para criar cidades mais compactas, sustentáveis e saudáveis. Cidades em harmonia com o ambiente natural em que estão inseridas.
A SPIRN,. O Jardim de granito. São Paulo: Edusp, 1995.
https://www.archdaily.com.br/br/01-166572/parque-manancial-de-aguas-pluviais-slash-turenscape
GORSKI, Maria Cecília Barbieri. Rios e cidades ruptura e reconciliação. In: GORSKI, Maria Cecília Barbieri. Rios e cidades ruptura e reconciliação. São Paulo: Senac, 2010. p. 1-300.
PALLASMAA, Juhani. A Imagem Corporificada. Porto Alegre: Bookman, 2013.
Por Tueilon de Oliveira