
Imagem: (Thewire.in)
Logo na abertura do hipnótico 2001: Uma Odisseia no Espaço, Stanley Kubrick faz uma transição que é considerada por muitos como uma das mais icônicas – e inesperadas – da história do cinema. Um simples pedaço de osso lançado ao ar por um primata é justaposto e substituído, em projeção, por uma nave espacial.
Com isso, Kubrick em sua genialidade absoluta consegue sintetizar o significado de milhões de anos de evolução tecnológica usando apenas alguns breves segundos de projeção.
Ainda sobre o prisma da tecnologia, há no filme um outro elemento que nos fornece uma base de discussão bastante atual: o HAL 9000; uma inteligência artificial presente na nave espacial e que serve como auxílio para os astronautas do filme. Em um caso típico da vida imitando a ficção, o filme de 1968 prevê de forma muito assertiva uma realidade que vivemos hoje.
Uma das questões mais intrigantes em relação ao assunto é o fato de a inteligência artificial pôr em pauta uma das características mais singulares que nos define enquanto seres humanos; e que, até o momento, máquina alguma havia a capacidade de fazer: a criatividade.
Com sua capacidade computacional quase ilimitada e acesso imediato a bancos de dados e informações, um dos fatores impressionantes na IA é a velocidade. Desde a redação de um anúncio, o resumo de um livro, a criação de vídeos a partir de uma história ou a re-imaginação de croquis, a IA executa essas tarefas em segundos de forma inteligente e interativa. Aliás, estes são apenas alguns exemplos de trabalhos que custariam a um humano algumas horas ou até mesmo dias de trabalho em equipe.
Diante dessa perspectiva, parece até que podemos pôr em xeque o conceito de “aceleração do tempo”, presente nos escritos de Zigmunt Bauman, visto que agora, o tempo parece ser ainda mais rápido.
O sociólogo polonês ao analisar o modo de vida da sociedade contemporânea desenvolveu o conceito de “modernidade líquida”. O termo é uma metáfora à condição de liquidez e imprevisibilidade das constantes mudanças das relações sociais, que parecem passar mais rapidamente do que nas épocas anteriores. Aliás, com a inteligência artificial, não se trata mais de aceleração, mas sim, da instantaneidade do tempo.

Imagem: (Elaborada por inteligência artificial)
Dentre as inúmeras ferramentas de inteligência artificial que temos à nossa disposição hoje, a que ganhou mais destaque é o ChatGPT, da Openai.
Assim como o HAL 9000 de Kubrick, o ChatGPT é considerado um large language models (LLMs), ou seja, são sistemas de linguagem treinados para aprender e gerar grande escala de informações em linguagem natural. Ambos os sistemas também podem ser vistos como assistentes virtuais que fornecem suporte em tarefas específicas, em diferentes contextos, a partir de inputs dos usuários.
Vídeo: (youtube.com)
Enquanto o HAL auxiliava os astronautas na nave espacial Discovery One, as ferramentas de inteligência artificial disponíveis atualmente fornecem suporte em tarefas variadas. Pode-se citar o aprimoramento de diagnósticos médicos, na análise e previsão de resultados judiciais, na análise de tendências do mercado financeiro, suporte no aprendizado de estudantes ou mesmo na recomendação de produtos com base em nossas interações em redes sociais.
As aplicações são inúmeras e não param de surgir novas a cada instante. E o melhor: você não precisa ser um astronauta para utilizar a IA no seu dia a dia.
No campo da arquitetura, a inteligência artificial está permeando todos os aspectos do processo projetual, desde a concepção até a construção e manutenção dos edifícios.
Ferramentas avançadas de modelagem e simulação, auxiliam os arquitetos a explorarem uma variedade de ideias de design de forma rápida e eficiente. Algoritmos de IA podem processar grandes conjuntos de dados para oferecer insights valiosos sobre diversos aspectos, como na simulação de eficiência energética, otimização do programa de necessidades, aprimoramento do uso dos espaços e análise de impactos ambientais. A IA permite que os arquitetos tomem decisões com base em probabilidades estatísticas durante o processo de design.
Um outro aspecto da integração da IA na arquitetura é a capacidade de realizar modelagem generativa – o que chamamos de form finding. Essas técnicas permitem que os arquitetos explorem uma vasta gama de formas e geometrias, muitas vezes além das capacidades humanas convencionais. A modelagem generativa utiliza algoritmos de IA para gerar uma variedade de opções de design com base em parâmetros específicos fornecidos pelo arquiteto. Isso permite uma perspectiva mais ampla e criativa de soluções arquitetônicas, levando a resultados inovadores.

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Além disso, o form finding é uma abordagem que visa encontrar a forma ou geometria ideal de uma estrutura, muitas vezes otimizando sua eficiência estrutural e estética. Algoritmos de IA podem analisar as forças e tensões envolvidas em uma estrutura para encontrar a forma que melhor se adapta às necessidades do projeto. Esse método pode resultar em edifícios com formas complexas e orgânicas, que são tanto visualmente impressionantes quanto estruturalmente eficientes. Tudo isso, é claro, sendo realizado em um curto período tempo.
Outra aplicação interessante da inteligência artificial na arquitetura é a simulação e análise de dados. Algoritmos de IA podem simular o desempenho de um edifício em diferentes condições, ajudando os arquitetos a otimizar seu funcionamento e reduzir custos operacionais. Além disso, a IA pode ser usada para prever padrões de uso do espaço e demanda por recursos, permitindo uma melhor alocação de recursos e uma abordagem mais eficiente para o planejamento urbano.
Além dessas aplicações múltiplas no campo projetual, é válido mencionar que a IA tem sido aplicada também em outros campos. À exemplo da robótica e da fabricação digital. São áreas onde robôs e sistemas controlados por IA estão sendo usados para fabricar componentes de construção complexos com precisão e eficiência, reduzindo os custos e o tempo de construção.
O que abre novas possibilidades para a concepção e construção de edifícios que seriam difíceis ou impossíveis de alcançar com métodos de construção convencionais.
Por fim, mas voltando ao que talvez seja o começo de tudo, podemos retomar a discussão que põe em pauta os métodos e processos criativo usados na arquitetura.
O método até então usado para chegar ao resultado final de um projeto arquitetônico compõe um processo exaustivo. Formado por múltiplos estudos buscando compreender e manipular as infinitas possibilidades que dialogam entre o que se busca extrair de cada projeto; forma, função, materialidade, atendimento a um programa de necessidades, condicionantes locais do terreno, condicionantes estruturais, financeiros. É uma lista que poderia continuar ad infinitum, e que culmina no conceito do projeto: a materialização do desejo do arquiteto.
Mas, o problema da inteligência artificial é que, através dela, todo esse método se torna irrelevante ao se reduzir à um prompt de comando que sumariza todas as etapas descritas acima.
Quando começamos a produzir os textos para o Blog da Plus arquitetura, em meados de 2020, um dos tópicos que ficou no nosso radar como tema para a produção de textos foi o da tecnologia aplicada à arquitetura. Ainda assim, há apenas quatro anos atrás, não havíamos tomado por relevante o tema da inteligência artificial. Para nós, naquele momento, essa tecnologia ainda não parecia ter uma aplicabilidade prática.
Essa ampla volatilidade tecnológica torna cada vez mais difícil prever quais tecnologias teremos à nossa disposição, e sua aplicação. É por isso que, no momento atual (levando em consideração que esse texto está sendo escrito em junho de 2024) estamos em fase de testes, fazendo uso da IA como ferramenta de auxílio no processo projetual.
Imagem: (boldbusiness.com)
À medida que essas mudanças tecnológicas avançam em ritmo acelerado, surge uma questão fundamental: qual será o papel do arquiteto do futuro? A inteligência artificial irá substituir o arquiteto?
O papel criativo e a sensibilidade humana no design de espaços e estruturas ainda são cruciais e difíceis de replicar por IA. Além disso, o trabalho de um arquiteto envolve muitas outras habilidades além do design, como coordenação com clientes, engenheiros e empreiteiros, compreensão das necessidades dos usuários e considerações ambientais e regulatórias. Então, é improvável que a IA substitua completamente o papel do arquiteto no futuro próximo, mesmo sendo uma ferramenta valiosa.
Independentemente das ferramentas e tecnologias disponíveis, o verdadeiro poder do arquiteto reside em sua capacidade de compreender e responder às necessidades e aspirações das comunidades que servem.
Mas é claro, que ainda é cedo para termos uma opinião e postura mais consolidada em relação ao tema. Quem sabe, em um futuro não tão distante, com o aperfeiçoamento dessas ferramentas somado a um período maior para testar nossa relação com a IA, possamos voltar à discutir esse tópico novamente, com mais propriedade.
Como uma odisseia no espaço da criatividade, a jornada da arquitetura impulsionada pela inteligência artificial nos leva a novos horizontes de possibilidade e descoberta, nos permitindo novas formas de usar nossa criatividade.
E você, caro leitor, o que achou deste texto? Afinal, foi escrito por uma pessoa… ou algum algoritmo baseado em modelos de linguagem de grande escala?
https://futureoflife.org/cause-area/artificial-intelligence/
Por Tueilon de Oliveira